Furia Em Duas Rodas: [repack]

Ele acelerou.

Foi então que viu o Fiesta prata.

Bruno viu o pneu do Fiesta a trinta centímetros de sua canela. Viu o olho arregalado do motorista do ônibus atrás do para-brisa. Viu a própria mão no guidão – e notou que ela tremia. Não de medo. De vergonha. furia em duas rodas

Bruno parou no acostamento. Desmontou. As pernas cederam.

O motorista do Fiesta – um senhor de cabelos grisalhos, óculos de leitura pendurado no pescoço – não o viu. Estava ao telefone, ouvindo a filha dizer que havia passado no vestibular. Ele sorria. Diminuiu mais um pouco, para saborear a notícia. Ele acelerou

Bruno nunca contou sobre a Marginal. Mas naquela noite, antes de dormir, ouviu o ronco distante de outra moto acelerando na avenida. E, pela primeira vez, não sentiu inveja. Sentiu alívio por não estar mais lá.

Acelerou fundo, jogou a moto para a contramão – havia um ônibus vindo. O farol do ônibus cresceu como um sol amarelo. O senhor do Fiesta, assustado com o clarão, puxou o volante para a esquerda sem querer. Exatamente para onde Bruno ia. Viu o olho arregalado do motorista do ônibus

O asfalto da Marginal Tietê reluzia sob a garoa fina de maio. Para Bruno, não era apenas uma via expressa; era uma arena. E sua arma era uma moto – uma Titan 150 escura, com o escapamento roncando um aviso grave.